Arquivo de Baubo - Alma em Flor https://almaemflor.com/tag/baubo/ Essencialmente feminina Fri, 24 Oct 2025 03:16:43 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://almaemflor.com/wp-content/uploads/2025/08/cropped-rosa-vermelha-logo-32x32.png Arquivo de Baubo - Alma em Flor https://almaemflor.com/tag/baubo/ 32 32 O Cio Feminino: A Recuperação de uma Sexualidade Sagrada https://almaemflor.com/o-cio-feminino-sexualidade-sagrada/ https://almaemflor.com/o-cio-feminino-sexualidade-sagrada/#respond Sun, 24 Aug 2025 18:14:11 +0000 https://almaemflor.com/?p=226 Capítulo 11 As Deusas Sujas e o Cio Feminino Clarissa começa descrevendo um ser que vive no “subterrâneo selvagem das naturezas das mulheres” – a nossa natureza sensorial. Ela a compara a um “cio”, não restrito à sexualidade, mas a um fogo interior que pulsa em ciclos de intensa consciência sensorial, abrangendo música, movimento, alimento, bebida, …

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Deusa grega Deméter diante de colunas do Partenon, com vestido branco e detalhes dourados, segurando um sorriso emocionado após ouvir Baubo.

Capítulo 11

As Deusas Sujas e o Cio Feminino

Clarissa começa descrevendo um ser que vive no “subterrâneo selvagem das naturezas das mulheres” – a nossa natureza sensorial. Ela a compara a um “cio”, não restrito à sexualidade, mas a um fogo interior que pulsa em ciclos de intensa consciência sensorial, abrangendo música, movimento, alimento, bebida, paz, silêncio, beleza e escuridão. Este é o aspecto da mulher que tem cio: uma energia vital que nos move e nos permite agir plenamente.

A autora resgata o conceito de “obsceno sagrado”, explicando que, em tempos antigos, não era vulgar, mas uma sabedoria sexual bem-humorada e irreverente. As “deusas sujas” não eram figuras depreciativas, mas personificações de uma sexualidade feminina livre e poderosa, que a cultura moderna tentou suprimir e associar à vulgaridade.

Clarissa explora a etimologia da palavra “dirt” (sujeira) – vinda do nórdico antigo, significando “excremento”, e que se expandiu para incluir “obscenidade”. Ela argumenta que a difamação de termos como “sujo” para algo natural e poderoso contribuiu para a supressão dessa parte da psique feminina. As “deusas sujas” pertencem à “terra fértil, à lama, ao estrume – à substância criadora da qual se origina toda arte”.

Baubo: A Deusa do Ventre e o Riso Libertador

O primeiro conto apresentado é o de Baubo, uma deusa grega antiga, conhecida como “deusa da obscenidade”. A história de Deméter, a deusa mãe, que cai em profunda depressão e amaldiçoa a terra após o rapto de sua filha Perséfone por Hades, é o pano de fundo. Ninguém consegue fazer Deméter rir ou quebrar seu luto, até que Baubo aparece.

Baubo é descrita de forma peculiar e chocante: sem cabeça, com os mamilos servindo de olhos e a vulva como boca. Ela se aproxima de Deméter dançando de forma sexualmente explícita e contando piadas picantes e engraçadas. O riso de Deméter, provocado pela irreverência de Baubo, é o que a tira de sua melancolia, devolvendo-lhe a energia para resgatar Perséfone e, com ela, a fertilidade da terra.

Os ensinamentos de Baubo:

  • “Diz com as pernas” (Dice entre las piernas): Baubo representa a voz da sabedoria que emana do ventre feminino, da conexão mais íntima da mulher com seu corpo e sua sexualidade. Ela fala a partir da primae materia, a verdade mais básica e honesta.
  • O Riso Medicinal: O riso provocado por Baubo é um “medicamento vital”. Ele libera o que está preso, dissipa a melancolia, traz um humor físico (não intelectual) e desobstrui passagens energéticas. É um riso que sacode a psique, toca nos ossos e gera ondas de prazer, sendo sagrado por sua capacidade de cura.
  • Ver com os Mamilos e Falar com a Vulva: Clarissa interpreta essas características de Baubo simbolicamente: os mamilos como órgãos psíquicos sensíveis (à temperatura, ao medo, à raiva), e a vulva como a “boca vital” que fala a partir do cerne da verdade e da sexualidade sagrada.

Coyote Dick: O Humor que Desbloqueia

Clarissa apresenta o conto de Coyote Dick, uma história de humor popular que ela ouviu de um administrador de estacionamento de trailers. É a história do pênis de Coyote Dick que, entediado, decide sair para uma aventura por conta própria e acaba preso numa moita de urtigas. Coyote Dick o resgata, mas o pênis passa a coçar “feito louco para todo o sempre”.

O ensinamento de Coyote Dick:

  • O Humor Irreverente: Essa história, contada com grande gargalhada, exemplifica o tipo de humor que Baubo teria usado. É um humor que aborda temas “obscenos” de forma direta, física e libertadora, sem vulgaridade, mas com uma alegria que “chega longe e fundo na psique”.
  • Sexualidade Descomplexada: O conto, por sua leveza e humor sobre a sexualidade masculina, permite que a sexualidade feminina seja vista também sem tabus e repressões, como uma fonte de alegria e energia que “voa solta” e se recria.

Uma Viagem a Ruanda: A Irreverência Feminina como Ato de Resistência

Para ilustrar o poder do riso e da irreverência como forma de resistência, Clarissa narra uma história que ouviu em sua infância: a das mulheres de Ruanda. Quando o General Eisenhower visitaria suas tropas, o governador local insistiu que as mulheres nativas se vestissem. No dia do desfile, as mulheres usavam as saias que lhes foram dadas, mas, com um ato de subversão silenciosa, não usaram as blusas. Em vez disso, ao passarem por Eisenhower, elas graciosamente levantavam a saia para cobrir o rosto.

O ensinamento de Ruanda:

  • A Subversão Criativa: Este é um exemplo brilhante de como a mulher, mesmo sob opressão, encontra formas criativas de afirmar sua autonomia e seu corpo. O riso compartilhado e a irreverência feminina são formas de resistência que desarmam o poder controlador.
  • A Alegria como Força Vital: O ato de “cobrir o rosto” com a saia, rindo por trás, é uma celebração da sexualidade, da liberdade e da conexão com o corpo que as mulheres compartilhavam, desafiando a imposição externa. Clarissa sentia que essa imagem a firmava, forte e com os pés na terra, em momentos de tensão.

O Sagrado e o Sensual:

Clarissa conclui que, na natureza selvagem, o sagrado e o irreverente, o sagrado e o sexual, não estão separados. O riso sexual, quando medicinal, é sagrado. Ele reorganiza, reafirma a força e o poder, e deixa as pessoas “alegres por estarem vivas”. É uma sexualidade da alegria, sem a necessidade de um objetivo utilitário, que nutre a alma.

Este capítulo é um poderoso convite para abraçarmos nossa sensualidade e sexualidade em sua totalidade, sem vergonha ou repressão. É um chamado para resgatar o riso, a espontaneidade e a alegria que nos conectam à nossa Mulher Selvagem e nos permitem viver plenamente.

É um capítulo denso e transformador. Sinta-se à vontade para digerir essas ideias. Quando estiver pronta, adoraria ouvir suas impressões e reflexões. Me escreva!✉

Continue descobrindo mais sobre o poder feminino com as demais postagens sobre a obra da Clarissa na categoria Mulheres Que Correm Com os Lobos, que faz da série do estudo sobre o livro Mulheres Que Correm com os Lobos de Clarissa Pinkola Estés

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