Arquivo de psique selvagem - Alma em Flor https://almaemflor.com/tag/psique-selvagem/ Essencialmente feminina Fri, 24 Oct 2025 03:16:43 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://almaemflor.com/wp-content/uploads/2025/08/cropped-rosa-vermelha-logo-32x32.png Arquivo de psique selvagem - Alma em Flor https://almaemflor.com/tag/psique-selvagem/ 32 32 Mulher dos Cabelos de Ouro: O Clã das Cicatrizes e a Força da Verdade https://almaemflor.com/mulher-dos-cabelos-de-ouro-cla-das-cicatrizes/ https://almaemflor.com/mulher-dos-cabelos-de-ouro-cla-das-cicatrizes/#respond Sun, 24 Aug 2025 19:22:22 +0000 https://almaemflor.com/?p=232 A Mulher dos Cabelos de Ouro (Arányos Haj) Era uma vez uma mulher lindíssima, porém muito estranha. Ela possuía longos cabelos dourados, finos como fios de ouro. Órfã e sem posses, vivia sozinha em um recanto da floresta, onde passava seus dias tecendo em um tear feito de galhos de nogueira-preta. Sua vida era simples …

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Quatro mulheres — anciã, donzela, feiticeira e mulher — com cicatrizes visíveis no rosto e no corpo, lado a lado em expressão de força e irmandade

A Mulher dos Cabelos de Ouro (Arányos Haj)

Era uma vez uma mulher lindíssima, porém muito estranha. Ela possuía longos cabelos dourados, finos como fios de ouro. Órfã e sem posses, vivia sozinha em um recanto da floresta, onde passava seus dias tecendo em um tear feito de galhos de nogueira-preta. Sua vida era simples e harmoniosa, vivida em paz com a natureza.

Um dia, um brutamontes, filho do carvoeiro local, tentou forçá-la a se casar com ele. Em uma tentativa desesperada de se livrar de suas investidas, a mulher dos cabelos de ouro lhe deu uma mecha de seus preciosos fios dourados. O brutamontes, no entanto, não compreendia o verdadeiro valor – seja ele monetário ou espiritual – daquele ouro. Quando tentou trocar o cabelo por mercadorias no mercado, foi ridicularizado e considerado louco pelas pessoas.

Consumido pela fúria e humilhação

O filho do carvoeiro voltou à cabana da mulher naquela mesma noite. Em sua raiva cega, ele a matou com as próprias mãos e enterrou seu corpo ali mesmo, junto ao rio, acreditando que com isso seu segredo e sua vergonha estariam ocultos para sempre.

Por um longo tempo, ninguém na aldeia percebeu a ausência da mulher. Ninguém perguntou por ela, nem por seu paradeiro. Seu destino parecia selado na escuridão e no esquecimento.

Contudo, algo mágico e indomável aconteceu em sua sepultura. Seus longos cabelos dourados continuaram crescendo sem parar. Assim, eles perfuraram o solo negro e depois subiram em curvas e espirais. Por fim, cobriram a cova com juncos ondulantes.

A verdade

Um dia, pastores que passavam por ali cortaram esses juncos anelados para fazer flautas. E, quando as flautinhas foram tocadas pela primeira vez, elas não emitiram meras melodias; elas começaram a cantar, clara e incessantemente, a verdade do que havia acontecido:

“Aqui jaz a mulher dos cabelos dourados, assassinada e enterrada, morta pelo filho do carvoeiro porque tinha vontade de viver.”

“Assim, a melodia das flautas revelou a verdade: o homem que tirou a vida da Mulher dos Cabelos de Ouro. A aldeia o descobriu e o levou à justiça.” Clarissa Estés conclui: aqueles que habitam os bosques selvagens do mundo – como nós vivemos – puderam, mais uma vez, sentir-se em segurança.

Vitalidade da alma

Este conto é um poderoso lembrete de que, mesmo quando somos silenciadas ou enterradas sob as “camadas de vergonha” (sejam elas impostas por outros ou por nós mesmas), nossa essência, nossa verdade e nossa força criativa são indestrutíveis. A “Mulher dos Cabelos de Ouro” representa a alma feminina que insiste em se manifestar, cantando sua história, mesmo quando a boca está selada. A beleza e a força da sua essência não podem ser contidas, e sua verdade encontrará um meio de vir à tona, trazendo consigo a cura e a restauração do equilíbrio.

Esta história é uma metáfora arrebatadora da vitalidade indestrutível da alma selvagem. Mesmo quando somos silenciadas, assassinadas simbolicamente ou enterradas sob camadas de vergonha, nossa verdade e força criativa continuam a crescer e a insistir em vir à tona. O cabelo, nesse contexto, simboliza a energia criativa e o conhecimento. Por mais que tentemos reprimir nossa essência, ela encontrará um caminho para se manifestar e revelar o que foi ocultado.

Há o conceito arquetípico e uma metáfora central que Clarissa Pinkola Estés desenvolve e tece ao longo de todo o Capítulo 13: “Marcas de Combate: A Participação no Clã das Cicatrizes”.

O Conceito do “Clã das Cicatrizes” 

É a grande ideia que permeia o capítulo, representando uma irmandade profunda e ancestral de mulheres.

“Essa eterna tribo de mulheres de todas as cores, todas as nacionalidades, todos os idiomas, que no decorrer dos séculos passaram por algo de grandioso e que mantiveram seu orgulho.” 

Esse arquétipo cura e empodera o feminino, e podemos destrinchar sua essência nos seguintes pontos:

Reconhecimento da Dor e do Sofrimento: 

As feridas – físicas, emocionais, espirituais ou criativas – marcam a vida de toda mulher. Essas feridas podem vir de traições, perdas, violências, negligências, julgamentos ou sacrifícios impostos. O Clã das Cicatrizes não nega a dor, mas a reconhece como parte intrínseca da experiência feminina. Além disso, essas cicatrizes transformam-se em marcas de sobrevivência e resiliência.

Transformação da Vergonha em Honra: 

Um dos maiores fardos que muitas mulheres carregam são os “segredos envoltos em vergonha”. A sociedade, a família ou até mesmo a própria internalização de normas rígidas fazem com que elas escondam aspectos de suas vidas que consideram “inaceitáveis”. O Clã das Cicatrizes oferece um espaço onde a vergonha é dissipada através da revelação e do compartilhamento. As cicatrizes, que antes podiam ser motivo de isolamento e vergonha, tornam-se marcas de sobrevivência, sabedoria e resiliência.

A Força da Resiliência: 

Assim como uma cicatriz na pele é mais forte que a pele original em termos de resistência à tração, as cicatrizes da alma conferem uma força e uma sabedoria que não existiriam sem a superação da dor. Não é a ausência de feridas que define a mulher selvagem, mas sua capacidade de curá-las e integrá-las, tornando-se mais robusta e completa.

A Cura pela Revelação e Compartilhamento: 

O clã opera na premissa de que os segredos, quando guardados, criam “zonas mortas” na psique, drenando a vitalidade. A cura começa quando a mulher decide “contar para alguém”, revelando sua verdade. Esse ato de exteriorização, seja pela fala, escrita ou arte, libera a energia aprisionada e permite que o processo de cura comece. A história da “Mulher dos Cabelos de Ouro” é o exemplo clássico de como a verdade, mesmo enterrada, encontra um caminho para se manifestar e trazer justiça.

A Celebração das “Marcas de Combate”: 

Clarissa Estés propõe que as mulheres deveriam “contar sua idade não pelos anos, mas pelas marcas de combate”. Essas marcas são as experiências que moldaram a mulher, as batalhas vencidas (e até as perdidas, que se tornam aprendizado). O “capote expiatório” é um artefato simbólico que as mulheres podem criar, um casaco onde são pintadas ou costuradas todas as calúnias, traumas, ofensas e feridas. Ao fazê-lo, a mulher não apenas reconhece sua própria história de dor, mas a exibe como um testemunho de sua resistência e dignidade.

    “Como o povo lakota pintava hieróglifos em peles de animais para registrar os acontecimentos do inverno, e os povoai náuatle, maia e egípcio possuíam seus códices de registro dos grandes eventos da tribo, das guerras, das vitórias, as mulheres têm seus capotes expiatórios, seus mantos de combate. Fico me perguntando o que nossas netas e bisnetas irão pensar das nossas vidas assim registradas.” (Mulheres que correm com os lobos, Capítulo 13)

    Solidariedade e Pertencimento: 

    O Clã das Cicatrizes é uma comunidade invisível, mas real, onde as mulheres se reconhecem e se apoiam em suas jornadas. É um convite a buscar e a oferecer a compreensão mútua, sabendo que as experiências de dor e superação são universais no feminino. Não estamos sozinhas em nossas lutas.

      Em resumo, o Clã das Cicatrizes é uma imagem poderosa que nos convida a redefinir nossa relação com a dor e as imperfeições. Ele nos ensina que não precisamos ser imaculadas para sermos inteiras. Ao abraçar nossas cicatrizes com orgulho e compaixão, entramos em uma linhagem ancestral de mulheres que transformaram o sofrimento em sabedoria, e a vulnerabilidade em uma fonte inesgotável de força.

      Compartilhe suas reflexões comigo! Te espero com carinho!💐

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      Rosa vermelha com constealções zodiacais ao fundo

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      Essencialmente feminina


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      O Cio Feminino: A Recuperação de uma Sexualidade Sagrada https://almaemflor.com/o-cio-feminino-sexualidade-sagrada/ https://almaemflor.com/o-cio-feminino-sexualidade-sagrada/#respond Sun, 24 Aug 2025 18:14:11 +0000 https://almaemflor.com/?p=226 Capítulo 11 As Deusas Sujas e o Cio Feminino Clarissa começa descrevendo um ser que vive no “subterrâneo selvagem das naturezas das mulheres” – a nossa natureza sensorial. Ela a compara a um “cio”, não restrito à sexualidade, mas a um fogo interior que pulsa em ciclos de intensa consciência sensorial, abrangendo música, movimento, alimento, bebida, …

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      Deusa grega Deméter diante de colunas do Partenon, com vestido branco e detalhes dourados, segurando um sorriso emocionado após ouvir Baubo.

      Capítulo 11

      As Deusas Sujas e o Cio Feminino

      Clarissa começa descrevendo um ser que vive no “subterrâneo selvagem das naturezas das mulheres” – a nossa natureza sensorial. Ela a compara a um “cio”, não restrito à sexualidade, mas a um fogo interior que pulsa em ciclos de intensa consciência sensorial, abrangendo música, movimento, alimento, bebida, paz, silêncio, beleza e escuridão. Este é o aspecto da mulher que tem cio: uma energia vital que nos move e nos permite agir plenamente.

      A autora resgata o conceito de “obsceno sagrado”, explicando que, em tempos antigos, não era vulgar, mas uma sabedoria sexual bem-humorada e irreverente. As “deusas sujas” não eram figuras depreciativas, mas personificações de uma sexualidade feminina livre e poderosa, que a cultura moderna tentou suprimir e associar à vulgaridade.

      Clarissa explora a etimologia da palavra “dirt” (sujeira) – vinda do nórdico antigo, significando “excremento”, e que se expandiu para incluir “obscenidade”. Ela argumenta que a difamação de termos como “sujo” para algo natural e poderoso contribuiu para a supressão dessa parte da psique feminina. As “deusas sujas” pertencem à “terra fértil, à lama, ao estrume – à substância criadora da qual se origina toda arte”.

      Baubo: A Deusa do Ventre e o Riso Libertador

      O primeiro conto apresentado é o de Baubo, uma deusa grega antiga, conhecida como “deusa da obscenidade”. A história de Deméter, a deusa mãe, que cai em profunda depressão e amaldiçoa a terra após o rapto de sua filha Perséfone por Hades, é o pano de fundo. Ninguém consegue fazer Deméter rir ou quebrar seu luto, até que Baubo aparece.

      Baubo é descrita de forma peculiar e chocante: sem cabeça, com os mamilos servindo de olhos e a vulva como boca. Ela se aproxima de Deméter dançando de forma sexualmente explícita e contando piadas picantes e engraçadas. O riso de Deméter, provocado pela irreverência de Baubo, é o que a tira de sua melancolia, devolvendo-lhe a energia para resgatar Perséfone e, com ela, a fertilidade da terra.

      Os ensinamentos de Baubo:

      • “Diz com as pernas” (Dice entre las piernas): Baubo representa a voz da sabedoria que emana do ventre feminino, da conexão mais íntima da mulher com seu corpo e sua sexualidade. Ela fala a partir da primae materia, a verdade mais básica e honesta.
      • O Riso Medicinal: O riso provocado por Baubo é um “medicamento vital”. Ele libera o que está preso, dissipa a melancolia, traz um humor físico (não intelectual) e desobstrui passagens energéticas. É um riso que sacode a psique, toca nos ossos e gera ondas de prazer, sendo sagrado por sua capacidade de cura.
      • Ver com os Mamilos e Falar com a Vulva: Clarissa interpreta essas características de Baubo simbolicamente: os mamilos como órgãos psíquicos sensíveis (à temperatura, ao medo, à raiva), e a vulva como a “boca vital” que fala a partir do cerne da verdade e da sexualidade sagrada.

      Coyote Dick: O Humor que Desbloqueia

      Clarissa apresenta o conto de Coyote Dick, uma história de humor popular que ela ouviu de um administrador de estacionamento de trailers. É a história do pênis de Coyote Dick que, entediado, decide sair para uma aventura por conta própria e acaba preso numa moita de urtigas. Coyote Dick o resgata, mas o pênis passa a coçar “feito louco para todo o sempre”.

      O ensinamento de Coyote Dick:

      • O Humor Irreverente: Essa história, contada com grande gargalhada, exemplifica o tipo de humor que Baubo teria usado. É um humor que aborda temas “obscenos” de forma direta, física e libertadora, sem vulgaridade, mas com uma alegria que “chega longe e fundo na psique”.
      • Sexualidade Descomplexada: O conto, por sua leveza e humor sobre a sexualidade masculina, permite que a sexualidade feminina seja vista também sem tabus e repressões, como uma fonte de alegria e energia que “voa solta” e se recria.

      Uma Viagem a Ruanda: A Irreverência Feminina como Ato de Resistência

      Para ilustrar o poder do riso e da irreverência como forma de resistência, Clarissa narra uma história que ouviu em sua infância: a das mulheres de Ruanda. Quando o General Eisenhower visitaria suas tropas, o governador local insistiu que as mulheres nativas se vestissem. No dia do desfile, as mulheres usavam as saias que lhes foram dadas, mas, com um ato de subversão silenciosa, não usaram as blusas. Em vez disso, ao passarem por Eisenhower, elas graciosamente levantavam a saia para cobrir o rosto.

      O ensinamento de Ruanda:

      • A Subversão Criativa: Este é um exemplo brilhante de como a mulher, mesmo sob opressão, encontra formas criativas de afirmar sua autonomia e seu corpo. O riso compartilhado e a irreverência feminina são formas de resistência que desarmam o poder controlador.
      • A Alegria como Força Vital: O ato de “cobrir o rosto” com a saia, rindo por trás, é uma celebração da sexualidade, da liberdade e da conexão com o corpo que as mulheres compartilhavam, desafiando a imposição externa. Clarissa sentia que essa imagem a firmava, forte e com os pés na terra, em momentos de tensão.

      O Sagrado e o Sensual:

      Clarissa conclui que, na natureza selvagem, o sagrado e o irreverente, o sagrado e o sexual, não estão separados. O riso sexual, quando medicinal, é sagrado. Ele reorganiza, reafirma a força e o poder, e deixa as pessoas “alegres por estarem vivas”. É uma sexualidade da alegria, sem a necessidade de um objetivo utilitário, que nutre a alma.

      Este capítulo é um poderoso convite para abraçarmos nossa sensualidade e sexualidade em sua totalidade, sem vergonha ou repressão. É um chamado para resgatar o riso, a espontaneidade e a alegria que nos conectam à nossa Mulher Selvagem e nos permitem viver plenamente.

      É um capítulo denso e transformador. Sinta-se à vontade para digerir essas ideias. Quando estiver pronta, adoraria ouvir suas impressões e reflexões. Me escreva!✉

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      As Águas da Sua Alma: Como Proteger o Rio da Criatividade Feminina https://almaemflor.com/as-aguas-da-sua-alma/ https://almaemflor.com/as-aguas-da-sua-alma/#respond Sun, 24 Aug 2025 17:39:42 +0000 https://almaemflor.com/?p=222 As Águas da Sua Alma: Como Proteger e Nutrir a Fonte da Criatividade Você já se sentiu como um rio seco? Um leito de terra rachada onde antes corria uma correnteza de ideias, paixões e vitalidade? Se sim, saiba que você não está sozinha. Dentro de cada mulher, segundo a psicanalista junguiana Clarissa Pinkola Estés, …

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      Mulher de vestido claro, chorando à beira de um rio iluminado pela lua cheia, tocando as águas como símbolo da alma criativa e da fonte interior.

      As Águas da Sua Alma: Como Proteger e Nutrir a Fonte da Criatividade

      Você já se sentiu como um rio seco? Um leito de terra rachada onde antes corria uma correnteza de ideias, paixões e vitalidade? Se sim, saiba que você não está sozinha. Dentro de cada mulher, segundo a psicanalista junguiana Clarissa Pinkola Estés, existe um rio sagrado: o rio da vida criativa.

      No capítulo “As Águas Claras” de Mulheres que Correm com os Lobos, somos convidadas a mergulhar em uma das metáforas mais poderosas para a nossa psique: a nossa criatividade como um rio que precisa fluir livremente para nos manter vivas e conectadas à nossa essência.

      O Rio Abaixo do Rio: Encontrando a Fonte

      Estés nos ensina que não existe apenas um rio, mas um “rio abaixo do rio”. O rio da superfície é a nossa vida cotidiana, nossas tarefas e projetos visíveis. Mas a verdadeira fonte, a correnteza profunda e inesgotável de inspiração, intuição e força vital, corre em um nível mais profundo. Encontrar e nutrir esse rio subterrâneo é a tarefa mais importante da mulher selvagem.

      Quando estamos conectadas a ele, a vida tem cor, sentido e propósito. Quando nos afastamos, a aridez toma conta.

      La Llorona: O Grito de Alerta da Alma Criativa

      Para ilustrar o perigo de negligenciar esse rio, a autora nos apresenta o arquétipo de La Llorona, a “Chorona”. Em muitas culturas, ela é a figura fantasmagórica que chora à beira d’água por seus filhos afogados:

      A Versão Antiga (Genérica): 

      Era uma vez uma moça pobre, mas de beleza estonteante, que foi cortejada por um rico fidalgo. Ela se apaixonou e lhe deu dois filhos. Contudo, o fidalgo não se dispôs a casar-se com ela, e um dia lhe comunicou que retornaria à Espanha para se casar com uma mulher rica de sua própria classe, e que levaria os filhos consigo.

      Fora de si, em um acesso de desespero e fúria como as loucas célebres de todos os tempos, ela arranhou o rosto do homem e o próprio, rasgou as vestes dele e as suas. Em sua dor alucinada, ela tomou os dois filhos pequenos, correu com eles para o rio e, ali, os jogou na correnteza, onde morreram afogados. La Llorona, então, caiu às margens do rio, consumida pela dor, e morreu também.

      Sua alma subiu aos céus, mas o porteiro lhe disse que, embora ela pudesse entrar por ter sofrido, não o faria sem antes resgatar as almas dos seus filhos do rio. Por isso, diz-se que, até hoje, La Llorona vasculha as margens dos rios, com seus longos cabelos arrastando-se na água, buscando incessantemente as almas de seus filhos perdidos. E as crianças vivas não devem se aproximar dos rios depois do anoitecer, pois La Llorona pode confundi-las com os seus e levá-las para sempre.

      A Versão Moderna (O Alerta de Danny Salazar): 

      Clarissa Pinkola Estés nos apresenta uma variação mais recente, que lhe foi contada por um menino de dez anos, Danny Salazar. Essa versão é um temblón, uma história de arrepiar, que busca não apenas entreter, mas provocar um arrepio de conscientização.

      Nessa versão, La Llorona não jogou os filhos no rio por raiva do fidalgo ou loucura. Ela se envolveu com um rico industrial que possuía fábricas à beira do rio. A mulher, durante a gravidez, bebeu da água desse rio. Seus dois filhos gêmeos nasceram cegos e com os dedos unidos por membranas, pois o fidalgo havia envenenado o rio com os dejetos de suas fábricas.

      O industrial, ao ver os filhos deformados, rejeitou La Llorona e as crianças, casando-se com a mulher rica que valorizava os produtos da fábrica. La Llorona, em um ato de profunda compaixão e desespero diante da vida que seus filhos teriam, jogou-os no rio para poupá-los de um sofrimento ainda maior. Depois, ela caiu morta de dor.

      Sua alma subiu ao céu, mas São Pedro lhe disse que ela não poderia entrar enquanto não encontrasse as almas dos filhos. Agora, La Llorona procura incessantemente por eles no rio poluído, mas mal consegue ver algo de tão escura e suja que está a água. Seus longos dedos de fantasma varrem o fundo do rio, e ela vagueia pelas margens, chamando pelos filhos.

      Psicologicamente, La Llorona é o espectro da nossa própria alma quando perdemos nossos “filhos”: nossas ideias, nossos projetos, nossos sonhos, nossa arte, nossa voz. Ela chora porque seu rio foi poluído, represado ou negligenciado, e sua prole criativa morreu.

      Quem são os poluentes do nosso rio?

      • A autocrítica feroz: A voz interna que diz “não é bom o suficiente”.
      • A falta de tempo e espaço: Um ritmo de vida que não permite o ócio, o devaneio e a contemplação.
      • Ambientes tóxicos: Pessoas ou situações que zombam, minimizam ou drenam nossa energia criativa.
      • O medo: O pavor de não ser original, de falhar ou de ser julgada.

      Quando permitimos que esses poluentes contaminem nossas águas, corremos o risco de nos tornarmos a La Llorona, vagando espiritualmente e lamentando o que foi perdido.

      Tornando-se a Guardiã do Próprio Rio

      A boa notícia é que podemos escolher um papel diferente: o de guardiã do nosso rio. Ser uma guardiã significa assumir a responsabilidade ativa de manter nossas águas internas limpas, claras e correntes.

      Isso significa aprender a construir pontes em vez de barragens, a filtrar o que entra em nosso ecossistema psíquico e a passar tempo na “margem do rio” – em silêncio, na natureza, em atividades que nos reabastecem, ouvindo o que a correnteza profunda tem a nos dizer.

      Proteger a vida criativa não é um luxo; é um ato de preservação da alma.

      Um Convite à Reflexão

      Agora, convido você a olhar para dentro e se conectar com as águas da sua própria alma. Permita-se refletir honestamente e sinta-se à vontade para compartilhar comigo:

      1. Como está o rio da sua alma hoje? Você consegue sentir seu fluxo, mesmo que seja um sussurro suave, ou ele parece distante, bloqueado ou poluído?
      2. Quais são os principais “poluentes” que ameaçam suas águas criativas no momento? São vozes internas de crítica, pessoas que não a apoiam, ou um ritmo de vida que não deixa espaço para sua alma respirar?
      3. Que pequeno ato de “limpeza” ou “proteção” você pode se comprometer a fazer hoje para honrar seu rio? Pode ser dedicar dez minutos a uma paixão, dizer “não” a algo que drena sua energia, ou simplesmente sentar-se em silêncio para ouvir o que suas águas internas têm a dizer.

      Lembre-se: sua criatividade é sagrada. É a sua força vital. Proteja-a com a ferocidade de uma loba e a sabedoria de uma guardiã.

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      Te espero com carinho!🌺

      Livro O Jardim Que Me Habita

      Neste livro, não há promessas de perfeição. Há verdades suaves, silêncios profundos, poesia plantada no cotidiano e a beleza de ser humana com todas as fases do próprio céu interior.

      Escrito por uma mulher que ama flores, estrelas e a simplicidade como caminho de cura, O Jardim Que Me Habita é para quem precisa lembrar que ainda há beleza, mesmo nos invernos da alma.

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