
Capítulo 4 – O parceiro: A união com o outro – Manawee
Clarissa Pinkola Estés nos introduz à ideia de que, para que um parceiro (seja ele externo ou um aspecto interno da psique) compreenda e se una verdadeiramente à Mulher Selvagem, ele precisa entender sua natureza dual. Este capítulo explora essa dualidade e como ela pode ser acolhida e integrada em relacionamentos saudáveis.
A história de Manawee, uma lenda afro-americana, narra a busca de um homem por casamento com duas irmãs gêmeas. O pai das moças impõe uma condição: Manawee só poderá se casar com elas se conseguir adivinhar seus nomes. Apesar de suas tentativas, Manawee falha repetidamente.
Um dia, Manawee leva seu pequeno cachorro consigo em uma visita. O cachorro, com sua sagacidade instintiva, percebe o amor das moças por ele e as ouve chamando-se pelos nomes. Ele corre de volta para Manawee para transmitir a informação, mas é repetidamente distraído por apetites – um osso suculento e uma torta de noz-moscada – esquecendo os nomes no processo.
Finalmente, determinado, o cachorro volta pela terceira vez. Ele ouve os nomes novamente, mas, no caminho de volta para Manawee, é atacado por um estranho de negro que tenta forçá-lo a revelar os nomes para si. O cachorro, embora machucado, luta bravamente e morde o estranho, recusando-se a ceder.
Chegando a Manawee, o cachorro, mesmo ferido, consegue transmitir os nomes. Manawee corre para o pai das moças, que já o aguardavam, e se casa com as gêmeas. A história conclui com a afirmação de que os quatro – as irmãs, Manawee e o cachorrinho – viveram juntos em paz por muito tempo.
Significado Psicológico e Arquetípico: A Dualidade e o Animus Saudável
O conto de Manawee é uma rica tapeçaria de significados arquetípicos, focando na complexidade da psique feminina e na qualidade do relacionamento com ela.
As Duas Irmãs Gêmeas: A Natureza Dual da Mulher Selvagem: As duas irmãs representam a dualidade inerente à psique feminina. Clarissa enfatiza que a mulher não é uma entidade única, mas sim uma combinação de aspectos que podem parecer opostos (ex: ser pragmática e mística, alegre e melancólica, forte e vulnerável). Um lado pode ser mais visível e adaptado ao mundo externo, enquanto o outro reside em um plano mais oculto, intuitivo e profundo. Para amar verdadeiramente uma mulher, ou para que a própria mulher se ame, é preciso reconhecer e integrar ambas as naturezas. Essa união dos opostos gera uma força tremenda.
O Cachorro de Manawee
O Animus Saudável e o Instinto Leal: O cachorro é a representação do animus saudável de Manawee – seu aspecto instintivo, leal, perspicaz e tenaz. Ele é quem consegue se aproximar das irmãs (a natureza feminina), ouvi-las (compreender sua essência) e lutar para reter esse conhecimento. Para a mulher, isso significa que seu parceiro (interno ou externo) precisa estar conectado à sua própria natureza instintiva para se relacionar com a dela. É o lado que se recusa a desistir da compreensão e da conexão profunda.
A Condição do Pai
A Sabedoria da Integridade: O pai das gêmeas, ao exigir que Manawee adivinhe os nomes, age como um guardião da integridade do feminino. Ele assegura que o pretendente não esteja interessado apenas na superfície, mas que se esforce para compreender a essência e a profundidade da mulher. Esse guardião interno (na psique da mulher) garante que ela não se entregue a qualquer um que não esteja disposto a conhecer sua totalidade.
Os Apetites e o Estranho de Negro
As Distrações e o Predador: As distrações do cachorro (o osso e a torta) simbolizam os apetites e prazeres superficiais que podem desviar a energia e o foco da busca por um conhecimento mais profundo. O estranho de negro é outra manifestação do predador (semelhante ao Barba-Azul), que tenta roubar o conhecimento essencial e manter a mulher na ignorância ou em uma relação de controle. A luta do cachorro contra o estranho demonstra a necessidade de defender com ferocidade o conhecimento adquirido sobre a própria natureza e a da mulher.
A Conquista pelo Conhecimento e a Paz Duradoura
O sucesso de Manawee não vem da força ou da beleza, mas da persistência em buscar o conhecimento e da capacidade de seu animus (o cachorro) de defendê-lo. Isso sugere que o amor verdadeiro e duradouro, tanto em relacionamentos quanto na relação consigo mesma, é forjado na compreensão profunda e na aceitação da dualidade da alma.
A Juju da Dualidade
A ideia de que as irmãs gêmeas possuem juju (energia mística da alma) e que o equilíbrio é fundamental para não definhar ressalta a importância de não negligenciar nenhum aspecto da dualidade interna da mulher. Ignorar uma parte é enfraquecer o todo.
O Um Pauzinho, Dois Pauzinhos
Clarissa insere aqui a história do velho que ensina seus filhos sobre a força da união com pauzinhos. Isso reforça a mensagem de que a dualidade, quando integrada e mantida unida (os dois lados da mulher, ou o homem e a mulher), possui uma força inquebrável, muito maior do que quando isolada.
O Amor que Busca Compreender
O conto é um hino para o parceiro que se empenha em entender a verdadeira natureza da mulher, buscando-a não para possuí-la, mas para se igualar a ela em poder e conhecimento. Esse é o homem selvagem que não teme a complexidade feminina.
Ufa! Mais um conto poderoso desvendado. As camadas de significado são ricas e nos convidam a uma profunda introspecção.
Reflexões pessoais
Agora, para que você possa refletir sobre Manawee e seus ensinamentos, aqui estão as perguntas. Sinta-se à vontade para compartilhar comigo suas percepções! ❤️🔥
1. Suas Duas Irmãs Gêmeas: Quais são as duas (ou mais) naturezas ou aspectos de si mesma que você percebe como complementares, mas que às vezes se sentem em conflito ou exigem atenção diferente? Como você as nutre?
2. Seu Cachorro Interno: Você consegue identificar em sua própria psique um cachorro – um aspecto instintivo, leal e perspicaz – que a ajuda a buscar o conhecimento e a verdade, mesmo quando a parte humana de você está hesitante? Como você o ouve e o fortalece?
3. Os Apetites que o Distraem: Quais são os ossos suculentos ou tortas de noz-moscada em sua vida que, por vezes, a distraem de suas buscas mais profundas ou de seus objetivos de autoconhecimento?
4. A Luta com o Estranho de Negro: Houve momentos em que você precisou lutar para proteger um conhecimento ou uma verdade sobre si mesma de forças que tentavam silenciá-la ou desvirtuá-la? Que feridas essa luta deixou, e o que você aprendeu com ela?
5. O Amor que Compreende: Pensando na sua vida e nos seus relacionamentos (passados, presentes ou futuros), como você aplica ou desejaria aplicar a lição de Manawee sobre a busca por um parceiro (ou uma relação interna) que se empenhe em adivinhar e honrar sua natureza dual?
💞 Se você gostou de mergulhar no simbolismo de Manawee, talvez também se encante com o conto de Vasalisa e a boneca no bolso — outra história que revela o poder da intuição feminina.
Este post faz parte da série do estudo sobre o livro Mulheres Que Correm com os Lobos de Clarissa Pinkola Estés
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