Ilustração acolhedora de uma bonequinha de pano com cabelos ruivos ondulados, sentada em silêncio diante de uma fogueira na floresta ao entardecer, transmitindo aconchego, introspecção e conexão com a natureza.
Mulheres que Correm com os Lobos

Vasalisa e a Boneca da Intuição: O Resgate da Mulher que Sabe

Ilustração acolhedora de uma bonequinha de pano com cabelos ruivos ondulados, sentada em silêncio diante de uma fogueira na floresta ao entardecer, transmitindo aconchego, introspecção e conexão com a natureza.

Capítulo 3 – Farejando os fatos: O resgate da intuição como iniciação. A boneca no bolso: Vasalisa, a sabida

A história começa com uma jovem mãe à beira da morte, que entrega à sua pequena filha, Vasalisa, uma bonequinha minúscula e a instrui: Se você se perder ou precisar de ajuda, pergunte à boneca o que fazer. Você receberá ajuda. Guarde sempre a boneca. Não fale a ninguém sobre ela. Dê-lhe de comer quando ela estiver com fome. A mãe morre, e o pai, algum tempo depois, casa-se novamente com uma viúva que tem duas filhas. A madrasta e as irmãs atormentam Vasalisa, forçando-a a trabalhos pesados e humilhando-a.

Um dia, a madrasta, querendo livrar-se de Vasalisa, apaga o fogo da lareira e manda a menina buscar brasas na casa de Baba Yaga, a temível bruxa da floresta. Vasalisa, assustada, pega a boneca e, a cada bifurcação do caminho, consulta-a, dando-lhe pedacinhos de pão. A boneca a guia. No caminho, ela vê três cavaleiros: um de branco (Dia), um de vermelho (Sol Nascente) e um de negro (Noite).

Baba Yaga

Ao chegar à casa de Baba Yaga, um casebre sobre pernas de galinha, rodeado por uma cerca de caveiras que refulgem no escuro, Vasalisa é confrontada pela bruxa horripilante. Baba Yaga, que se move em um gral voador, exige que Vasalisa realize tarefas impossíveis em troca do fogo, ameaçando devorá-la se falhar.

As tarefas são: lavar as roupas da Yaga, varrer a casa e o quintal, preparar sua comida, separar milho mofado de milho bom e sementes de papoula de um monte de estrume. Vasalisa sente-se incapaz, mas a boneca sussurra para ela comer e dormir. Na manhã seguinte, todas as tarefas, exceto a refeição, estão feitas pela boneca. Baba Yaga fica satisfeita, mas desconfiada, e chama suas mãos invisíveis para ajudá-la.

Vasalisa, incentivada pela boneca, pergunta a Baba Yaga sobre os cavaleiros. A bruxa responde, mas quando Vasalisa está prestes a perguntar sobre as mãos invisíveis, a boneca salta em seu bolso, alertando-a. Vasalisa então diz que já sabe demais, o que agrada a Baba Yaga.

Baba Yaga, reconhecendo que Vasalisa foi abençoada (pela boneca/intuição), não a quer por perto e lhe entrega uma caveira incandescente de sua cerca, com olhos que emitem fogo, para levar para casa. Vasalisa, assustada, pensa em jogá-la fora, mas a caveira a convence a seguir.

Ao chegar em casa, a madrasta e irmãs contam que o fogo delas não para de apagar. A caveira incandescente, no entanto, passa a queimar e consumir as três perversas mulheres, reduzindo-as a cinzas. Vasalisa, agora livre, vive uma vida longa e feliz.

Conexão com os Temas do Livro: O Resgate da Intuição

O conto de Vasalisa é um rito de iniciação feminino sobre como a mulher recupera e confia em sua intuição, a capacidade de farejar fatos e discernir a verdade em meio às ilusões.

A Boneca como a Intuição Inata e a Bênção Materna:

A boneca é o presente mais precioso da mãe, um talismã que simboliza a intuição inata da Mulher Selvagem. Ela é a voz interna de sabedoria que guia Vasalisa. A instrução de alimentá-la é crucial: a intuição precisa ser nutrida com atenção e confiança para florescer. Clarissa argumenta que a intuição é transmitida de geração em geração, mas muitas vezes se perde. O conto é um guia para reativá-la.

As Tarefas e a Jornada da Alma:

Os trabalhos impossíveis impostos por Baba Yaga não são punições, mas provas arquetípicas que forçam Vasalisa a desenvolver e confiar em sua intuição.

Lavar, Varrer, Cozinhar:

Simbolizam a limpeza e organização da psique, o cuidado com o espaço interno e externo, e a nutrição do self selvagem (Baba Yaga).

Separar o Milho e a Papoula:

Representa a discriminação e o discernimento, a capacidade de distinguir o útil do inútil, o saudável do tóxico. É a arte de separar isso daquilo, uma habilidade vital para a saúde psíquica.

Baba Yaga:

A Megera Selvagem como Iniciadora: Baba Yaga não é uma vilã simples, mas a Grande Mãe Selvagem em sua forma arquetípica mais crua e transformadora. Ela é a guardiã do mistério, da estranheza, da ‘alteridade’ do selvagem. É assustadora, mas justa. Ela testa Vasalisa não para destruí-la, mas para fortalecer sua intuição e coragem. Encarar Baba Yaga (ou o aspecto não-domesticado da própria psique) sem hesitar é um passo fundamental para o autoconhecimento e a recuperação do poder. A Yaga exige respeito e autenticidade.

Os Cavaleiros e as Mãos Invisíveis:

Compreendendo os Ciclos e os Mistérios: As perguntas de Vasalisa sobre os cavaleiros (Dia, Sol Nascente, Noite) revelam sua busca por entender os ciclos da vida, morte e renovação. A bruxa responde, mas a boneca a impede de perguntar sobre as mãos invisíveis. Isso sugere que há mistérios que não devem ser forçados ou intelectualizados excessivamente, mas aceitos e experienciados através da intuição. Saber quando perguntar e quando silenciar é parte da sabedoria.

A Caveira Incandescente:

O Poder da Visão e da Destruição da Sombra: A caveira não é um troféu, mas um símbolo do poder da visão e da verdade implacável. Ela representa a sabedoria ancestral que queima a ilusão e a falsidade. Ela é a manifestação da intuição em sua forma mais penetrante, capaz de reformular a sombra. O fato de ela consumir a madrasta e as irmãs (as vozes internas e externas que sufocam a mulher) significa que a intuição, uma vez fortalecida, elimina as energias destrutivas da psique, libertando a mulher para viver plenamente.

A Iniciação Completa e a Vida Autêntica:

A jornada de Vasalisa demonstra que a iniciação é um processo ativo de busca, enfrentamento e re-integração. A mulher não é apenas uma vítima, mas uma heroína que, ao abraçar sua intuição, se liberta das amarras internas e externas, conquistando uma vida autêntica e alegre.

Clarissa Pinkola Estés salienta que Vasalisa se torna sabida não por erudição, mas por intuição e experiência. O conto celebra a inteligência visceral, a que fareja a verdade, mesmo quando as aparências enganam. É uma ode à resiliência da alma feminina e à sua capacidade de encontrar o caminho de volta para casa, mesmo nas circunstâncias mais hostis.

Reflexão pessoal

  • 1.  Sua Boneca no Bolso: Pensando na bonequinha de Vasalisa, qual é a boneca no seu bolso? Como sua intuição (sua boneca) se manifesta para você? Você a alimenta e a consulta regularmente, ou há momentos em que a ignora?
  • 2.  Sua Baba Yaga Pessoal: Onde ou em que situações da sua vida você sente a presença de uma Baba Yaga que impõe tarefas difíceis ou que te confronta com suas sombras? Como você reage a essa Baba Yaga?
  • 3.  As Tarefas de Baba Yaga em Sua Vida: Das tarefas de Vasalisa (limpeza, organização, discernimento, nutrição), qual delas ressoa mais com um trabalho que você sente que precisa fazer em sua psique ou em sua vida hoje?
  • 4.  A Caveira Incandescente e a Verdade Queimadora: Houve momentos em que uma verdade queimadora (como a luz da caveira) eliminou algo ou alguém da sua vida, revelando uma ilusão? Como foi esse processo e o que restou após a queima?
  • 5.  Perguntar e Silenciar: O que a boneca impede Vasalisa de perguntar sobre as mãos invisíveis de Baba Yaga. Você já se viu em situações onde sua intuição te disse para não perguntar ou não investigar algo, mesmo que sua mente racional quisesse? Como você lida com esses momentos de silêncio da intuição?

Gratidão

Aguardo seu contato para refletirmos juntas!

“Quando uma mulher recupera sua vida instintiva, sua criatividade floresce, sua força retorna e seu espírito se enche de esperança.”
Clarissa Pinkola Estés
Claudia Lessa na rede amarela com uma flor amarela no cabelo

Leia também: Mulheres que Correm com os Lobos: O Chamado da Mulher Selvagem 🐺🔥❤️

Este post faz parte da série do estudo sobre o livro Mulheres Que Correm com os Lobos de Clarissa Pinkola Estés

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